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O Douro é vinho. Vinho e vinha
Pode ser Rio, pode ser Terra Região ou Vila Mas é sobretudo vinho A Monocultura é assim, impregna tudo, os montes, as casas e os homens
António Barreto – “ Douro” - Edições Inapa, SA 1993
A Região do Douro tem uma particularidade única: é perfeitamente explícito quando se entra nela. A passagem do granito ao xisto é tão evidente que não só é perceptível fisicamente como emocionalmente. Tomem-se dois casos paradigmáticos: o primeiro, quando se vem de Moimenta da Beira para Tabuaço existe a seguir a Sendim uma falha granítica e a seguir entra-se no xisto e a paisagem muda completamente de textura e de leitura sensorial. O mesmo se passa, por ex, na estrada de Vila Real para a Régua antes da Cumieira. A passagem do granito para o xisto faz a diferença e demarca a zona – por Barqueiros e por Lamego, por Sabrosa, por Alijó, por Carrazeda, por Almendra, por Vila Flor, etc. Vem-se do Planalto e desce-se por vales estreitos e profundos, ladeados de vinhas e cai-se no Rio. E lá está o Rio, correndo ao longo da Região, como uma vara de videira, em que se encrostam ramificações que são os seus afluentes: o Sabor, o Côa, O Tua, o Torto, o Távora, o Pinhão, o Corgo.
O carácter de diferença, o ter sido através de séculos uma Região fechada ao exterior, por ter uma produção muito própria – a vinha - que o homem teve que trabalhar adaptando-se à natureza, deu-lhe uma identidade que a fez reconhecer como Património da Humanidade. Tem ainda uma outra particularidade que a marcou profundamente que foi a dicotomia entre produzir um produto – vinho - Vinho do Porto, ou como regionalmente se dizia “vinho fino” ou “ vinho generoso” – global, numa região virada sobre si própria em que os grandes produtores a visitavam poucas vezes – na vindima, mas que em geral viviam fora dela. O Porto era o centro económico do comércio do vinho, aonde se armazenava envelhecendo e se exportava. O valor acrescentado que ficava na região era mínimo. Região de clima difícil, pouco salubre, um rio caprichoso dado a cheias e perigoso para navegar, como o atestam as numerosas capelinhas de evocação da Sra. dos Navegantes. Estes factores determinaram que a estrutura de povoamento da Região tivesse uma característica, as povoações nasceram e desenvolveram-se no zona acima os 500m, por duas razões: melhor clima e salubridade e sobretudo melhores acessos ao resto do país.
Muito se passou ao longo de séculos, muita coisa mudou, mas muito permaneceu. O Douro continua a ser uma Região com uma tremenda falta de recursos humanos qualificados; a cultura informal tem que ser valorizada, expressa e mostrada ao mundo; a Região tem que se abrir, mas por forma que tudo o que é bom, genuíno, expressão dos valores que fizeram dela património da Humanidade se desenvolvam e não sejam destruídos em nome de um pseudo desenvolvimento. As potencialidades são enormes, mas têm que ser enquadradas numa matriz cultural e económica que seja sustentável, a longo prazo.
A Região do Douro foi a primeira Região a ser demarcada no Mundo. Não cabe aqui fazer a sua história, mas indicam-se várias “ligações” aonde toda esta informação poderá ser consultada. Convém realçar que a Região do Douro é relativamente pequena, 250 000 ha, e não homogénea. Podem-se distinguir três sub regiões: o Baixo Corgo (45000ha, dos quais 13 492 há de vinha), Cima Corgo (95 000 há dos quais 17036 há de vinha) e Douro Superior (110000 há dos quais 8 060 há de vinha).

A Região estende-se por 19 concelhos e todos eles têm actualmente estruturas de acolhimento. O problema mais difícil mantém-se e que é a circulação intra Região, embora esteja aqui um dos grandes atractivos, porque para se passar de um concelho ao outro tem que se descer pelos diferentes vales dos rios até à única estrada longitudinal, na margem esquerda. Na margem direita, o circuito é pela meia encosta. O comboio faz toda a margem direita e é uma beleza. Hoje o Rio é navegável por barcos turísticos.
Mais adiante, quando falarmos da Quinta da Veiga vão-se propor vários circuitos, que se poderão fazer em vários períodos de tempo. Não se pretende ser exaustivo, deixando ao viajante descobrir por si próprio aldeias, património formal (solares, igrejas, pelourinhos, etc) e popular ( casas, lagares armazéns, etc), miradouros, locais aonde comer, beber e repousar.
Saliente-se o facto de que se até há 2 décadas era o “Porto” que fazia a Região; actualmente, as melhorias de qualidade quer na viticultura, quer na vinicultura fizeram surgir vinhos de mesa de excelente qualidade, a nível mundial.
Termina-se, citando os critérios do ICCROM (Unesco) de classificação como Região Património da Humanidade: - The Alto Douro has been producing wine for nearly two thousand years and its landscape has been moulded by human activities; - The components of the Alto Douro landscape are representative of a full range of activities associated with winemaking – terraces, quintas ( wine producing farm complexes ), villages, chapels and roads; - The cultural landscape of the Alto Douro is an outstanding example of a traditional European wine –producing region, reflecting the evolution of this human activity over time.
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